24 de abr. de 2011

Maria da Penha: a lei que vai virar filme

Em 2006, o governo federal sancionou a lei nº 11.340, que pune com severidade praticantes de violência doméstica contra a mulher. De pronto, o texto foi batizado, informalmente, de “Lei Maria da Penha”.
Maria da Penha Maia Fernandes é a biofarmacêutica que, durante duas décadas, lutou, na Justiça, pela condenação do ex-marido, o colombiano Marco Antonio Heredia Vivero.

Acusado de tê-la atingido com um tiro nas costas, em 1983 -que acabaria por deixá-la paraplégica-, Vivero só foi preso em 2002, seis meses antes da prescrição do crime. Dos dez anos que deveria passar em cárcere, cumpriu dois.

A luta de Maria da Penha Fernandes para prendê-lo -que resultou, posteriormente, na criação da lei- vai virar filme, a ser rodado no próximo ano, com direção de Cidinha de Paula.

O projeto é da atriz Naura Schneider, que além de interpretar Maria da Penha, assina a produção. “Comprei os direitos [autorais] no ano passado”, ela disse. “A história é interessante do ponto de vista cinematográfico.”
Schneider explica: “A Maria da Penha tomou o tiro de bruços, enquanto dormia. Como ela não morreu, o marido foi à cozinha, cortou o ombro e forjou um assalto. Só que nada foi revirado na casa, ele não foi baleado.”

A produtora diz que Maria da Penha Maia Fernandes ainda viveu mais dois anos ao lado de Vivero, até duvidar da versão dele.
O filme, autorizado a captar R$ 4,5 milhões por meio das leis de incentivo, deve ser lançado em 2012. A primeira versão do texto, escrito pelo americano Harold Apter (roteirista de “Jornada nas Estrelas”), já está pronta.

Também está confirmada no filme a atuação de José de Abreu. Schneider ainda está procurando um ator de origem hispânica para viver Marco Antonio Heredia Viveros. A produtora diz que não pretende mudar o nome do ex-marido da vítima: “No livro escrito por ela, ele é citado e nunca processou”.
Será a segunda produção de Naura Schneider sobre o tema. Em 2010 ela lançou “Silêncio das Inocentes”, um documentário sobre a história de Maria da Penha.

“Todos conhecem a Lei Maria da Penha, mas a história da vida dela é pouco conhecida”, argumenta.

(ROBERTO KAZ) 

Morre atriz francesa Marie France Pisier

A atriz francesa Marie France Pisier, descoberta pelo cineasta François Truffaut e musa de outros diretores como Luis Buñuel, Jacques Rivette, Alain Robbe-Grillet e em particular André Téchiné, morreu na noite de sábado, 23, aos 66 anos.
O prefeito da localidade de Saint-Cyr-sur-Mer, na Costa Azul, onde vivia Pisier, foi o encarregado de dar a notícia da morte, sem precisar as circunstâncias.

Nascida em 10 de maio de 1944 na então Indochina francesa, começou sua carreira de atriz aos 17 anos ao ser descoberta por Truffaut, que procurava por uma jovem sorridente para seu curta-metragem Antoine et Colette, em 1962.

Dezessete anos mais tarde voltou a trabalhar com o mesmo diretor em O Amor em Fuga, o último capítulo da série do personagem Antoine Doinel, em cujo roteiro ela mesma colaborou.
Truffaut fez de Pisier um símbolo do cinema autoral e a ela recorreram Robert Hossein (La Mort d’un tueur, 1963), Luis Buñuel (O Fantasma da Liberdade, 1974), Jacques Rivette (Julie et Céline vont en bateau, 1974) e Alain Robbe-Grillet (Trans Europ Express, 1967).

Mas foi principalmente André Téchiné que a alçou à consagração definitiva por seus papéis em Sourvenirs d’em France (1975), Barocco (1976) e Les Soeurs Brontë (1979).
Em 1976, obteve o prêmio César de melhor atriz coadjuvante por seu trabalho em Cousin, cousine de Jean-Charles Tacchella, e no ano seguinte como atriz principal de Barocco.

Participou em 1968 das revoltas estudantis junto de seu então marido, o líder do movimento Daniel Cohn-Bendit. Anos mais tarde casou-se com Georges Kiejman, um dos advogados de maior renome na França.

Luc Skeudener/ EFE

Antigo hotel será lar de artistas carentes

Dos 53 prédios destinados ao Renova Centro, programa de habitação popular e requalificação que pretende trazer 2,5 mil famílias para morar naquela região, somente 3 começam a ganhar destinação social. Os primeiros beneficiados serão artistas aposentados, idosos e pessoas carentes.
Werther Santana/AE
Werther Santana/AE
 
Prédio da Avenida São João. Outros dois edifícios receberão idosos e famílias carentes
Ontem, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) assinou a escritura de desapropriação do Edifício Cineasta, antigo hotel abandonado na Avenida São João. O custo foi de R$ 4,2 milhões – 1% de todo o valor previsto para o Renova Centro. Será o primeiro prédio a ser reformado, para artistas que recebem hoje de 1 a 3 salários mínimos. Falta ainda a licitação para o início das obras de reforma interior e da fachada, tombada pelo patrimônio histórico. O edifício passará a ser chamado de Recanto dos Artistas. Após a reforma, terá 59 apartamentos de aproximadamente 50m² e um dormitório.

Mais dois edifícios foram desapropriados e estão em fase de licitação para reforma e adequação à moradia popular. Outros 20 são classificados como “em estágio avançado de desapropriação”, o que significa que os proprietários já aceitaram o valor proposto pela Prefeitura. “A promessa é entregar as primeiras unidades até 2012. As aprovações e toda a desapropriação devem ser feitas no menor prazo possível”, disse o secretário de Habitação e presidente da Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), Ricardo Pereira Leite.

Próximos passos. O prédio Mário de Andrade, na Rua Asdrúbal do Nascimento, receberá famílias carentes. E o Santo André, na Avenida Celso Garcia, será moradia de idosos. Juntos, os três prédios oferecem cerca de 150 apartamentos. Os moradores serão incluídos no programa de locação social da Prefeitura, que administrará os condomínios. Dessa forma, os inquilinos comprometerão em torno de 25% do salário com o aluguel.

“O maior beneficiário vai ser aquele cidadão humilde que precisa da sua casa e até então não teve concretizado esse sonho que é de todo ser humano”, disse, em discurso, Kassab. “São Paulo não tinha uma casa para acolher esses artistas. O prefeito cumpre uma promessa de campanha”, comemorou o ator Odilon Wagner, presidente da Associação dos Produtores Teatrais Independentes de São Paulo.

Crítico. Para o professor Issao Minani, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), atrair moradores de baixa renda para o centro é questionável. “Acho muito difícil você fazer uma revitalização de um conjunto de edifícios sem que isso seja precedido da criação de empregos e renda na região.”

PARA LEMBRAR
Clientes eram funcionários de empresas
A porta de vidro de entrada do Cineasta ainda ostenta o adesivo com o símbolo do hotel. Mas nenhum hóspede entra há cerca de dez anos. O acesso é bloqueado por grades, fechadas com cadeado. O prédio foi construído na década de 20 do século passado. Em entrevista ao Estado em maio de 1996, o então dono do hotel, o português Florival Manuel Francisco, contou que mais 80% dos clientes eram funcionários de empresas. Sacoleiros e casais suspeitos eram impedidos de se hospedar.

As diárias eram de um hotel duas-estrelas: em torno de R$ 300. As 20 suítes, mais espaçosas, contavam com camas de casal, banheira, ar-condicionado, frigobar e televisão. Os demais quartos, 60, diferiam por terem mais camas. O prédio contava com um jardim de inverno e uma sala de estar.
Apesar do fechamento, tudo continua ali: poltronas, camas de madeira, carpete. A diferença, atualmente, é a camada de poeira sobre a mobília e os dois elevadores parados, com a placa de manutenção. A proteção cabe a dois seguranças, mantidos ininterruptamente no local. A principal missão deles é evitar ações de invasores.

Na frente do prédio não há moradores de rua nem consumidores de droga. Quando tentam se acomodar ali, são espantados pelos seguranças.

Felipe Frazão – O Estado de S.Paulo
COLABOROU ELVIS PEREIRA

Sobretaxa: tênis da corrida ficará mais caro

Grandes empresas e Abicalçados travam guerra em torno da sobretaxa do tênis
Empresas e Abicalçados travam guerra em torno da sobretaxa

“Já existe uma infinidade de taxas que encarecem o calçado. Se a ideia é incentivar a indústria nacional, melhor investir em tecnologia, e não em algo que recaia sobre o consumidor” – Marcio Utsch, presidente da Alpargatas.

Quem viaja muito aos Estados Unidos já aprendeu a lição: vale sempre a pena dar uma olhada nos preços dos tênis, onde, quase que via de regra, podem custar menos da metade do que é cobrado no Brasil (veja quadro). Agora o que já era caro, pode ficar ainda mais. O governo estuda uma medida para sobretaxar calçados importados do Vietnã, Malásia, Indonésia e Hong Kong. Com o produto da China, isso já ocorre. Além dos 35% de imposto de importação – a alíquota máxima permitida pela Organização Mundial de Comércio (OMC) –, é cobrada sobre cada par que vem de lá uma sobretaxa de 13,85 dólares. A medida afeta todos os tipos de calçado, com pouquíssimas exceções para itens específicos, como produtos para prática de esqui e surfe na neve e para uso médico-hospitalar, entre outros.

Mais uma vez o pleito é da Associação Brasileira de Calçados (Abicalçados). A instituição afirma que, para driblar a sobretaxa sobre os produtos chineses, as indústrias têm feito a chamada triangulação. Trata-se da estratégia de usar partes de tênis provenientes da China e somente montá-los em outra nação da região, que assim exportaria o produto final com valores mais baixos. “Acreditamos que haja triangulação, pois logo após a aplicação da taxa aos calçados chineses, o mercado de calçados da Malásia aumentou”, afirma Admar Schievelbein, consultor de assuntos internacionais da Abicalçados.

O tributo adicional sobre as importações chinesas já havia sido pedido pela Associação em março do ano passado, quando foi registrada uma queixa junto ao governo federal de que tais produtos entravam no país com preços mais baixos que os do mercado de origem – o que configuraria ‘dumping’. A prática estaria prejudicando a indústria nacional. O governo assentiu e a sobretaxa foi aprovada nas importações de calçados chineses pelos próximos cinco anos.

Agora, os produtos importados do Vietnã, Malásia, Indonésia e Hong Kong também correm o risco de pagar a taxa antidumping de 13,85 dólares. Segundo a assessoria da Abicalçados, o pedido foi enviado em janeiro. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) – composta pelos titulares de seis ministérios, entre os quais Fernando Pimentel, do Desenvolvimentno, e Guido Mantega, da Fazenda – tem agora até julho para tomar uma decisão. Se a medida for aprovada, tênis importados como o Air Max 2011 e o Gel Nimbus 12 (veja quadro), produzidos na Malásia e na Indonésia, ficarão ainda mais caros.
info tênis
Consumidor é quem perde – Em reação a essas medidas, grandes empresas do segmento de material esportivo estrangeiras – Nike, Adidas, Puma, Asics, New Balance e Sketchers – e nacionais –
Penalty/Cambucy e Alpargatas, que é dona das marcas Rainha e Topper, além de representar a Mizuno no país – uniram-se em setembro de 2010 no Movimento para Livre Escolha (Move).

A entidade rivaliza com a Abicalçados na questão referente às taxas cobradas nos calçados esportivos de alta tecnologia. Enquanto a associação do setor quer proteger os interesses da indústria brasileira, o Move afirma ser a favor de oferecer ao consumidor um produto de alta qualidade e tecnologia, por um preço mais justo. “Ao importar um calçado, já estamos expostos a uma quantidade de impostos que beira o absurdo. Ações como essa, de proteção ao mercado dificultam as operações e, é claro, encarecem o produto”, aponta Gumercindo Neto, diretor executivo do Move.

A entidade que reúne as importadoras ressalta que não é contrária a uma investigação de dumping. A reclamação, nesse caso, é que o governo apenas atendeu a um pedido da Abicalçados, sem levar em conta o impacto para o consumidor. Além disso, o pleito da associação teria sido demasiadamente abrangente, envolvendo produtos os mais diferentes. O Move ressalta que a indústria brasileira é competitiva em uma série de artigos do setor calçadista. Não seria à toa, portanto, que se destaca enquanto um importante exportador. Muitas linhas de produtos de suas associadas são, inclusive, fabricados no país. Por outro lado, diz o Move, o Brasil não tem escala e tecnologia para concorrer com as asiáticas no segmento de ‘alta performance’.

Por fim, a entidade e alguns especialistas do setor avaliam que a China e seus pares do Sudeste asiático não praticam no exterior preços inferiores aos de seus mercados domésticos. “Não acredito que exista dumping neste caso”, afirma Dirceu Antonio Marques, professor da escola de negócios Trevisan.
Única beneficiada: a Vulcabrás – Mesmo que esse seja o caso, especialistas indicam que a atitude mais acertada seria apelar para os meios legais, e não simplesmente infringir outra sobretaxação. Apesar de a medida envolver outros tipos de calçados, a briga se dá mesmo no campo dos tênis. “Não há dumping nenhum na história. A medida foi única e exclusivamente tomada para proteger o mercado nacional. A única empresa que se beneficia disso é a Vulcabrás, que produz tênis no Brasil, e toma uma posição, através da Abicalçados, de quem quer fechar o mercado”, afirma uma fonte ligada ao caso.
O presidente da Vulcabrás – que detém as marcas Azaleia e Olympikus e os direitos da Reebok no país – é o executivo Milton Cardoso, que também preside a associação. Ironicamente, procurado pela reportagem, o empresário estava na Índia, onde a Vulcabrás acaba de comprar uma fábrica para produzir cabedais (a parte do tênis que recobre o pé) – ou seja, o mesmo empresário que pleiteia medidas de proteção de mercado junto ao governo resolve investir em uma produção na Ásia, porém, sabiamente, em um país que não há risco de restrições.

“O consumidor tem o direito de comprar os melhores produtos pelo melhor preço possível”, disse Marcio Utsch, presidente da Alpargatas. “Já existe uma infinidade de taxas que encarecem o calçado. Se a ideia é incentivar a indústria nacional, melhor investir em tecnologia, e não em algo que recaia sobre o consumidor”, completa. Ao fim, quem paga pela briga é mesmo quem compra tênis, em especial os praticantes de corrida, que, por recomendações médicas, devem trocar de tênis a cada três ou quatro meses para evitar lesões ao se exercitar.

(Bia Parreiras/Viagem e Turismo)
Veja

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